Televisão brasileira

Peixe e a adolescência sem abrigo: a novela das sete encara a rua

Em Por Você, a fuga do personagem e dos irmãos desloca o melodrama familiar para uma pergunta social: quem cuida quando a casa deixa de existir?

A novela das sete costuma ser lembrada pelo tom mais leve, pela comédia de costumes e pelo romance que embala a volta para casa. Em Por Você, porém, a faixa também tem aberto espaço para uma tensão menos confortável: a infância e a adolescência quando a rede de proteção falha, a família se rompe e a rua aparece não como aventura, mas como ameaça concreta.

O foco recente em Peixe, vivido por Cauê Campos, concentra esse movimento. Depois da morte de Juli, personagem de Lucy Ramos, Bela, interpretada por Sheron Menezzes, tenta cumprir o pedido da amiga e cuidar dos quatro filhos dela: Peixe, Glorinha, Ítalo e Samuca. O que poderia ser apenas uma promessa sentimental vira disputa de guarda, adaptação doméstica, conflito com o acolhimento institucional e resistência de um adolescente que tenta proteger os irmãos antes de saber como proteger a si mesmo.

O fato confirmado é este: nos capítulos desta virada de semana, Peixe foge do abrigo com os irmãos, tenta voltar à antiga casa da família, descobre que o imóvel está ocupado, passa por dificuldades na rua e é localizado por Bela, que já havia conseguido a guarda provisória. A interpretação começa daí: a novela transforma um acontecimento melodramático em sinal de algo maior, porque faz da casa perdida uma imagem forte da precariedade afetiva e social que atravessa muitas narrativas brasileiras.

Cauê Campos interpreta Peixe, o irmão mais velho que tenta proteger a família em Por Você.
Peixe concentra a tensão entre proteção afetiva, luto e risco nas ruas.

Peixe não é só o menino rebelde

A televisão brasileira conhece bem a figura do adolescente impulsivo. Em muitas tramas, ele serve para criar atrito, testar a paciência dos adultos ou acelerar conflitos românticos. Peixe, pelo menos neste arco, ocupa um lugar mais complexo. Ele reage mal, toma decisões perigosas e coloca os irmãos em risco, mas a dramaturgia não o reduz ao clichê do jovem ingrato.

As informações oficiais de apresentação do personagem o descrevem como o filho mais velho de Juli, protetor dos irmãos, impulsivo, doce e frágil por trás da marra. Esse conjunto importa porque impede uma leitura simples. A fuga não nasce apenas de teimosia. Ela se alimenta de luto, medo, desconfiança e de uma tentativa precoce de assumir uma autoridade que nenhum adolescente deveria carregar sozinho.

Quando Peixe leva Glorinha, Ítalo e Samuca para fora do abrigo, a cena coloca em choque duas ideias de proteção. De um lado, há a proteção formal: Conselho Tutelar, abrigo, juiz, guarda provisória. De outro, há a proteção afetiva: o irmão mais velho que acredita que ficar junto é melhor do que obedecer a um sistema que ele não compreende ou não confia. A novela não precisa transformar Peixe em herói para reconhecer que sua atitude nasce de um lugar emocional legível.

Esse é o ponto cultural mais interessante do arco. Em vez de tratar a juventude periférica apenas como problema disciplinar, Por Você sugere que a rebeldia pode ser uma linguagem de perda. Peixe erra, mas seu erro revela um mundo adulto que também falhou antes dele.

Sheron Menezzes e Lucy Ramos representam a amizade que move a trama de Por Você.
A promessa feita por Juli a Bela transforma afeto em responsabilidade familiar.

A rua como limite do melodrama

O melodrama popular vive de excessos: encontros impossíveis, vilãs obstinadas, segredos familiares, amores interrompidos. A rua, quando entra nesse universo, costuma funcionar como passagem, cenário de perseguição ou território de comicidade. Aqui, ela aparece como limite. Sem dinheiro, sem documentos e sem a antiga casa disponível, os irmãos ficam expostos a uma vulnerabilidade que não é abstrata.

As chamadas e resumos publicados sobre os capítulos indicam que as crianças têm pertences roubados e acabam se abrigando sob um viaduto. É uma imagem dura para o horário das sete. Não porque a televisão aberta nunca tenha mostrado pobreza, mas porque a cena desloca o centro da trama: por alguns momentos, a pergunta deixa de ser quem ficará com quem e passa a ser onde essas crianças dormirão.

Esse deslocamento muda o peso da novela. Bela continua sendo protagonista, Vanessa continua articulando conflitos e Gabriel ainda faz parte do triângulo afetivo e jurídico da história. Mas a fuga dos irmãos obriga todos esses adultos a responder a uma urgência material. A dor não cabe apenas no diálogo. Ela ocupa espaço, temperatura, chão, viaduto, medo.

A interpretação, aqui, precisa ser cuidadosa. Por Você não vira um drama social realista no sentido estrito. Continua sendo uma novela da Globo, com estrutura de folhetim, ganchos diários e conflitos reconhecíveis. O que ela faz é inserir dentro desse formato uma imagem de desamparo que conversa com o Brasil urbano sem precisar abandonar a linguagem popular.

Elenco de Por Você reunido durante a preparação da novela da Globo.
A novela reúne um elenco amplo para tratar família, perda e recomeço no horário das sete.

Bela e a maternidade por compromisso

Bela não é mãe biológica das crianças. Esse é o motor da personagem e também uma das perguntas centrais da novela: até onde vai uma família formada por promessa, afeto e responsabilidade? A trama oficial parte do último pedido de Juli para que a amiga cuide dos filhos. A partir daí, a maternidade deixa de ser destino naturalizado e passa a ser construção cotidiana.

Sheron Menezzes interpreta uma médica, alguém socialmente associada ao cuidado, mas a novela coloca esse cuidado em outra escala. Cuidar no hospital não é o mesmo que acordar quatro crianças, lidar com escola, trauma, fome, raiva e medo de abandono. A personagem precisa aprender uma maternidade que não foi planejada, e esse aprendizado acontece sob pressão.

A guarda provisória é um detalhe jurídico importante porque dá forma concreta ao afeto. Na televisão, muitas relações são legitimadas apenas por grandes discursos. Neste caso, o vínculo precisa passar por documento, autoridade e reconhecimento institucional. Isso fortalece o conflito: amar não basta quando a lei, a burocracia e a vulnerabilidade social estão no caminho.

Ao encontrar Peixe e os irmãos, Bela não apenas resgata crianças perdidas. Ela tenta reconstruir confiança. Para Peixe, aceitar voltar não significa apenas entrar em uma casa; significa admitir que talvez outro adulto possa cuidar sem substituir Juli. Esse é um tipo de drama mais silencioso do que uma grande revelação de paternidade, mas talvez mais próximo das famílias que se reorganizam depois de uma perda.

O elenco negro no centro da narrativa

Por Você também chama atenção pelo lugar que dá a atores negros em papéis centrais de afeto, desejo, conflito e autoridade. Sheron Menezzes, Lucy Ramos, Amaury Lorenzo e outros nomes do elenco fazem parte de uma trama que não limita personagens negros a funções laterais. Isso tem peso cultural porque a novela aberta ainda é uma das máquinas mais fortes de reconhecimento público no Brasil.

Em entrevista recente, Amaury Lorenzo destacou a dimensão representativa de seu personagem Lucas, inclusive pela presença dos dreadlocks e pela relação entre trajetória pessoal, ensino e construção do papel. A fala do ator ajuda a entender que escolhas de imagem, corpo e profissão em uma novela não são neutras. Elas comunicam pertencimento, repertório e disputa por lugares simbólicos.

No arco de Peixe, essa dimensão também aparece. O adolescente não é apenas um problema para ser resolvido por adultos brancos, ricos ou distantes de seu mundo. Ele está inserido em uma rede de personagens negros que amam, erram, cuidam, disputam e sofrem. A centralidade importa porque muda o espelho. A história de luto e guarda não é tratada como exceção exótica, mas como drama familiar com direito a complexidade.

Isso não transforma automaticamente a novela em obra perfeita ou imune a críticas. Representatividade não é selo de qualidade por si só. Mas, quando combinada a personagens com contradição, agência e afeto, ela amplia o campo do que a televisão brasileira permite imaginar como centro da cena.

O folhetim ainda sabe falar de proteção

Uma novela diária trabalha com repetição. O público encontra os personagens várias vezes por semana, acompanha pequenas mudanças, julga atitudes, revê posições. Esse ritmo é precioso para temas como guarda, acolhimento e adolescência vulnerável, porque eles não se resolvem em uma cena de impacto.

Peixe pode aceitar voltar para a casa de Bela e ainda continuar desconfiado. Bela pode conseguir a guarda provisória e ainda não saber como exercer esse papel. Os irmãos podem estar fisicamente protegidos e emocionalmente inseguros. A força do folhetim está justamente nessa permanência: ele permite que a reparação seja processo, não milagre.

O risco, claro, é simplificar instituições e conflitos sociais para caber no gancho diário. Por isso, a novela será mais forte quanto mais preservar a ambiguidade. O abrigo não precisa ser demonizado para que a dor das crianças seja reconhecida. Peixe não precisa estar certo para que seu medo seja legítimo. Bela não precisa acertar sempre para que seu compromisso tenha valor.

Quando essa ambiguidade aparece, Por Você se aproxima de uma tradição importante da TV brasileira: usar o melodrama como forma de conversa pública. A novela entra na casa das pessoas não como tese acadêmica, mas como emoção compartilhada. E, por meio dessa emoção, organiza perguntas sobre cuidado, abandono, classe, raça e pertencimento.

Por que esse arco importa agora

O interesse em Peixe mostra que o público ainda responde quando a cultura popular encosta em temas reconhecíveis sem abrir mão da narrativa. A fuga dos irmãos é um gancho de novela, mas também é uma imagem sobre crianças que, diante da perda, tentam escolher o próprio destino antes de terem ferramentas para isso.

A força do arco está em não separar totalmente o íntimo do social. O luto de Peixe é íntimo. A guarda provisória é institucional. O viaduto é urbano. A promessa de Bela é afetiva. A antiga casa ocupada é material. Tudo isso se mistura em uma trama que pode ser vista como entretenimento, mas também como sintoma de um país onde família muitas vezes significa improvisar proteção diante de estruturas insuficientes.

Para o Guia Cultural Becoartes, o ponto não é tratar novela como assunto menor nem inflar qualquer reviravolta televisiva como acontecimento histórico. O ponto é reconhecer quando uma obra popular aciona conversas que ultrapassam o capítulo. Em São Paulo, onde a rua, o deslocamento e a disputa por moradia são experiências visíveis em muitas camadas da cidade, Peixe encontra uma ressonância particular. Entre a Vila Madalena, seus muros pintados e o cotidiano do Beco, a cultura também serve para perguntar quem ganha abrigo nas histórias que contamos.

Olhar além do capítulo

Acompanhe a novela como cultura popular em movimento: observe personagens, escolhas de cena e conflitos sociais que aparecem por trás do melodrama.

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