Música brasileira

Anitta, EQUILIBRIVM II e a volta ao Brasil como projeto pop

O álbum de 2026 amplia a fase mais brasileira de Anitta com samba, funk, fé, convidados de várias gerações e um debate cultural que vai além do lançamento musical.

Anitta sempre soube transformar lançamento em acontecimento. Em EQUILIBRIVM II, porém, o ponto mais interessante não é apenas a escala do projeto, nem a lista de convidados, nem o audiovisual costurado para ampliar a experiência. O que faz o álbum importar culturalmente é a decisão de reposicionar uma artista global dentro de um vocabulário brasileiro sem tratar esse Brasil como ornamento turístico.

A pauta é pop, mas não é só sobre celebridade. EQUILIBRIVM II chega em 2026 como continuação direta de EQUILIBRIVM, lançado em abril, e aprofunda temas que já estavam no centro da fase: espiritualidade, ancestralidade, amor, corpo, cura e pertencimento. O disco reúne samba, funk brasileiro, reggae, forró, bossa nova, MPB, referências afro-brasileiras e vozes de diferentes gerações. É um movimento arriscado porque tira Anitta da zona mais óbvia do pop internacionalista e a coloca em diálogo com tradições que exigem cuidado, contexto e escuta.

Anitta cantando durante apresentação ao vivo em um palco iluminado.
Anitta em apresentação ao vivo, dimensão central de sua trajetória pop.

O que está confirmado

A divulgação oficial da Universal Music Brasil apresenta EQUILIBRIVM II como o nono disco de estúdio de Anitta e como continuação do projeto lançado em abril de 2026. A mesma fonte informa que a nova leva de faixas conta com Maria Bethânia, Alceu Valença, Mart’nália, MC Tha, Alexandre Carlo, Mestrinho, King Saints, Los Brasileros, Katú Mirim, Letícia Fialho, Brô MC’s, Kbrum e Grupo Ofá.

Há uma pequena diferença de apresentação entre plataformas e divulgação. A Universal trata o lançamento como chegada na quinta-feira, 23 de julho de 2026, com material audiovisual disponibilizado na virada para sexta-feira, 24. A Apple Music lista EQUILIBRIVM II em 23 de julho de 2026 como um pacote de 32 músicas, com 1 hora e 33 minutos, reunindo discos 1 e 2. Já a tracklist nova destacada pela Universal tem 17 faixas: Você Já Sabe, Sal Grosso, Não Me Cutuca, Eu Não Sou Santa, Feitiço, Ponta do Pé, Abre Caminho, Tudo Isso, Sem Pressa, Deus Mãe, Ogum Me Rodeia, Contemplação, Pra Você Gostar de Mim, Divino Sexual, Azul, Respira e OKE.

Também está confirmado que o projeto veio acompanhado de um curta-metragem musical. O gshow informou que o especial Esquenta TVZ EQUILIBRIVM II estreou no Multishow em 23 de julho, às 21h30, seguido por exibição no Globoplay e lançamento no canal da artista no YouTube à meia-noite. A leitura cultural precisa partir desses dados, sem inflar o lançamento com números de audiência, prêmios ou rankings que não estejam confirmados.

Maria Bethânia durante uma apresentação musical.
Maria Bethânia representa a ligação do álbum com uma linhagem profunda da música brasileira.

Uma brasilidade sem vitrine de aeroporto

A palavra brasilidade costuma ser usada de modo raso no pop: uma batida de funk, uma referência tropical, uma roupa colorida, um aceno ao carnaval. EQUILIBRIVM II tenta algo mais denso. A presença de forró, samba, reggae, funk, bossa nova e MPB não aparece como cardápio de exportação, mas como campo de tensão entre tradição e indústria.

A diferença é importante. Anitta construiu parte de sua carreira internacional negociando com idiomas, mercados e formatos globais. Aqui, a estratégia parece invertida: em vez de diluir o Brasil para caber no pop global, o álbum pede que o pop global aceite uma obra mais marcada por signos brasileiros. Isso não significa que tudo seja experimental. O disco continua interessado em refrão, dança, circulação em plataforma e imagem forte. Mas a embalagem pop serve a uma tentativa de centralizar matrizes brasileiras, não apenas citá-las.

Essa escolha conversa com um momento em que artistas brasileiros voltam a disputar narrativa sobre o que significa ser moderno sem abandonar território. O Brasil de EQUILIBRIVM II não é uma paisagem neutra. Ele aparece nas encruzilhadas, nos terreiros, na gafieira, no som de baile, na devoção popular, nas vozes indígenas e nas tradições negras que a música comercial muitas vezes consome sem nomear.

Alceu Valença se apresentando ao vivo com um microfone.
Alceu Valença aproxima o projeto das tradições nordestinas e do imaginário do forró.

Fé, corpo e ancestralidade como linguagem pop

O eixo espiritual é o elemento mais delicado do álbum. A divulgação oficial associa faixas como Você Já Sabe, Feitiço, Contemplação, Ogum Me Rodeia e OKE a referências de candomblé, umbanda, orixás, Exu, Pombagira, Ogum, Oxum, pontos tradicionais, povos originários e saberes ancestrais. Isso exige separar fato e interpretação: o fato é que o projeto assume essas referências; a interpretação é que Anitta tenta deslocar símbolos historicamente marginalizados para o centro de um produto pop de grande visibilidade.

Essa operação tem força e risco. Tem força porque religiões de matriz africana seguem enfrentando preconceito no Brasil, e a presença desses símbolos em uma obra de alcance massivo pode ampliar repertórios de respeito. Tem risco porque o pop pode transformar tudo em estética, esvaziando fundamento. A melhor defesa de EQUILIBRIVM II contra esse risco está nas colaborações: Grupo Ofá, Brô MC’s, Katú Mirim, MC Tha, Mart’nália, Maria Bethânia e Letícia Fialho não entram apenas como nomes decorativos. Eles carregam histórias, timbres, pertencimentos e campos de memória.

O corpo também é tratado como lugar de linguagem. Sal Grosso, Divino Sexual e Ponta do Pé ligam dança, sensualidade, proteção, desejo e movimento. Para uma artista que sempre foi julgada pelo corpo, retomar esse corpo como território de cura e autoria tem peso simbólico. A questão deixa de ser apenas performance sensual; passa a ser quem controla o sentido dessa performance.

Grafites coloridos no Beco do Batman, na Vila Madalena, em São Paulo.
O Beco do Batman conecta cultura pop, rua e identidade brasileira em São Paulo.

Colaborações entre gerações e territórios

A lista de convidados é um mapa do argumento cultural do disco. Maria Bethânia, Alceu Valença e Mart’nália aproximam Anitta de linhagens consagradas da música brasileira. Alexandre Carlo traz a memória do reggae brasileiro popularizado pelo Natiruts. Mestrinho aciona o universo do forró. MC Tha reforça um elo entre música urbana, espiritualidade e São Paulo. Brô MC’s e Katú Mirim deslocam a escuta para artistas indígenas. Kbrum aponta para cenas periféricas e diálogos com dancehall e ragga. Los Brasileros funcionam como força de produção ligada ao pop brasileiro contemporâneo.

O resultado não deve ser lido apenas como álbum cheio de participações. Há uma curadoria de posições. Ao cantar com Bethânia em Ogum Me Rodeia, Anitta se aproxima de uma tradição vocal e poética de enorme autoridade simbólica. Ao dividir OKE com Brô MC’s e Katú Mirim, ela abre espaço para uma presença indígena que o pop brasileiro raramente trata como centro. Ao gravar Sem Pressa com MC Tha, conecta o projeto a uma artista paulistana que há anos trabalha espiritualidade afro-brasileira com delicadeza e firmeza estética.

Nem toda colaboração precisa ter o mesmo peso. Algumas funcionam mais como cor sonora; outras reorganizam a leitura do álbum. O conjunto, porém, ajuda EQUILIBRIVM II a parecer menos uma aventura individual e mais uma conversa dirigida por Anitta dentro de um ecossistema brasileiro amplo.

Recepção: entusiasmo, crítica e cautela

A recepção disponível até 19 de agosto de 2026 indica interesse forte, mas ainda não permite falar em consenso histórico. A Folha de S.Paulo publicou crítica assinada por Felipe Maia em 24 de julho e classificou o disco como um dos melhores trabalhos da cantora, destacando o modo como Anitta coloca o palco em diálogo com músicas de prece e rito afro-brasileiro. A crítica também registrou ressalvas sobre momentos menos inspirados, especialmente quando o álbum se aproxima de sambas e soluções mais previsíveis.

No Album of the Year, a página de EQUILIBRIVM II mostra nota de usuários 75 baseada em 600 avaliações e, ao mesmo tempo, indica ausência de nota crítica agregada. Esse dado é útil para medir reação de público em uma comunidade específica, mas não deve ser confundido com recepção geral do mercado ou da crítica especializada. O gshow, por sua vez, cobriu o lançamento audiovisual e registrou o projeto como expansão da nova era de Anitta, com expectativa para a turnê.

A leitura mais honesta é esta: EQUILIBRIVM II foi recebido como um lançamento relevante, discutido e ambicioso, com elogios à coesão brasileira e críticas pontuais à irregularidade de algumas faixas. Isso já basta para colocá-lo entre os discos pop brasileiros de 2026 que merecem análise além do ciclo rápido das redes.

O significado cultural de EQUILIBRIVM II

O significado do álbum está menos em provar que Anitta agora é mais brasileira, como se isso precisasse de certificação, e mais em mostrar como uma artista de alcance global pode voltar ao Brasil sem fazer desse retorno uma regressão. Em vez de abandonar o pop, ela usa o pop como tecnologia de circulação para repertórios que vêm de outras matrizes: terreiro, baile, rádio, roda, rua, fé familiar, dança de salão, tradição oral.

Nesse sentido, EQUILIBRIVM II conversa com a história de artistas que transformaram identidade em método, não em fantasia. A comparação não precisa ser literal com Racionais MC’s, Kanye West ou The Weeknd, mas ajuda a pensar uma ideia: grandes momentos pop acontecem quando imagem, som, biografia e contexto social se organizam em uma linguagem reconhecível. Anitta tenta fazer isso a partir do Brasil, e não apesar dele.

Também há uma disputa de maturidade. Durante anos, parte da crítica tratou Anitta como estrategista mais do que artista. EQUILIBRIVM II não apaga essa dimensão estratégica; ao contrário, mostra que estratégia e autoria podem coexistir. A diferença é que agora a pergunta não é apenas qual mercado ela quer alcançar, mas que Brasil ela quer levar para esse mercado.

Por que isso importa em São Paulo

São Paulo entende bem esse tipo de mistura porque vive dela diariamente. A cidade recebe o funk do Rio, o rap das periferias, o reggae de circulação universitária e popular, o samba de roda, a MPB de teatro, o forró de migração nordestina, as festas de terreiro, as pistas eletrônicas e as ruas pintadas por artistas que disputam visibilidade no concreto. Um álbum como EQUILIBRIVM II não pertence a São Paulo, mas encontra aqui um público capaz de perceber suas camadas.

No fim, o lançamento de Anitta interessa ao Guia Cultural Becoartes porque trata cultura pop como território de conflito, memória e invenção. Entre a Vila Madalena, os muros do Beco do Batman e as noites em que a cidade transforma música em encontro, EQUILIBRIVM II lembra que o Brasil contemporâneo também se escuta nas passagens: entre o sagrado e a pista, entre o global e o local, entre a artista que todos conhecem e as raízes que ainda pedem atenção.

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