Cultura esportiva

Atenas, Pireu e Tessalônica: o centenário compartilhado do futebol grego

A história da federação nasceu de três associações regionais; a celebração de 2026 reuniu fundação, Euro 2004 e futebol escolar.

O centenário da Federação Helênica de Futebol não pertence apenas a Atenas. Para entender seu significado cultural, é preciso acompanhar uma história construída também no porto do Pireu e no norte do país, representado por Tessalônica. As comemorações realizadas em 15 de setembro de 2026 condensaram três tempos: a articulação institucional de 1926, a memória coletiva da Euro 2004 e a formação de uma nova geração por meio do futebol escolar.

Onze jogadores da seleção grega sub-21 posam no gramado, usando uniformes brancos e um uniforme preto de goleiro.
A seleção grega sub-21 antes de um amistoso contra a Áustria, em 2011.

Uma federação formada por três núcleos

A organização nacional resultou de negociações entre associações já atuantes. Segundo a história oficial da Federação Helênica de Futebol, clubes de Atenas e Pireu haviam criado uma associação regional em 1919. Em 1925, o projeto de uma autoridade central voltou à pauta, mas foi adiado por exigir recursos financeiros consideráveis.

O processo ganhou velocidade em 1926. Representantes de Atenas, Pireu e da associação Macedônia–Trácia elaboraram estatutos e regulamentos. Em 14 de novembro, reuniram-se nos escritórios da associação ateniense e formalizaram a federação após uma sessão de três horas. A instituição teve sua primeira diretoria eleita em 16 de novembro e foi reconhecida judicialmente em dezembro.

Essa origem explica por que o centenário não cabe numa narrativa exclusivamente ligada à capital. Atenas forneceu o espaço administrativo da fundação; o Pireu participou como núcleo autônomo; e Tessalônica representou a associação do norte. Trata-se de uma arquitetura nacional construída por negociação regional.

Jogadores da seleção grega sub-21 formam uma fila atrás de crianças vestidas com camisetas azuis em um campo cercado por árvores.
Jogadores da equipe sub-21 da Grécia e crianças antes de um amistoso contra a Áustria, em 2011.

Por que Tessalônica ocupou o centro da festa

A celebração institucional aconteceu em Tessalônica em 15 de setembro de 2026. A escolha não transformou a cidade em única proprietária dessa história, mas destacou seu lugar entre os três núcleos fundadores. Na cerimônia, as associações de Atenas, Tessalônica e Pireu foram homenageadas, conforme o relato oficial do evento.

A data da festa também deve ser distinguida da data histórica: a assembleia fundadora ocorreu em 14 de novembro de 1926. Em setembro de 2026, a federação realizou uma programação comemorativa do centenário, não uma reconstituição exata do aniversário civil.

Participaram da cerimônia dirigentes do futebol, representantes das associações e integrantes da seleção campeã europeia de 2004. O escritor Christos Zampounis apresentou a noite, que teve uma participação musical da cantora Demy. O desenho do evento aproximou memória administrativa e cultura pública, em vez de reduzir cem anos a uma sequência de resultados.

Onze jogadores da seleção grega posam em duas fileiras no gramado, com uniformes azuis e o goleiro de preto.
A seleção principal da Grécia antes de uma partida contra a Áustria, em 2010.

Atenas e Pireu continuaram decisivos

Atenas permaneceu central no desenvolvimento posterior. A federação foi admitida pela FIFA em 1927; a seleção disputou seu primeiro jogo organizado pela entidade no Estádio Panathinaikos, em 1929; e a primeira vitória internacional veio no mesmo estádio, contra a Iugoslávia, em 1930. A Grécia também integrou o grupo fundador da UEFA em 1954.

O Pireu, por sua vez, não é apenas uma referência do documento fundador. Em 2024, o Olympiacos rompeu uma barreira ao conquistar a UEFA Conference League, depois de sua equipe sub-19 vencer a UEFA Youth League. A final principal ocorreu em Atenas, e a celebração alcançou tanto a capital quanto o porto, segundo a retrospectiva dos cem anos publicada pela UEFA. O episódio atualizou, em escala continental, a ligação histórica entre as duas cidades.

Euro 2004 como memória coletiva

Nenhuma imagem recente do futebol grego pesa tanto quanto a conquista da Euro 2004. A equipe chegou a Portugal sem ter vencido uma partida em fases finais de grandes torneios. Depois de derrotar os anfitriões na abertura, superou França e República Tcheca no mata-mata e voltou a enfrentar Portugal na decisão.

Na final em Lisboa, Angelos Charisteas marcou de cabeça o único gol. A releitura da UEFA sobre o torneio atribui a campanha à organização, ao sacrifício e ao espírito coletivo da equipe dirigida por Otto Rehhagel. Em Tessalônica, os campeões presentes foram homenageados juntos por iniciativa do capitão Theodoros Zagorakis. O gesto reforçou a interpretação mais duradoura daquele título: a equipe acima da celebridade individual.

Da lembrança ao futebol escolar

Na mesma data da cerimônia, a Praça Aristóteles recebeu o festival “Football in Schools”. Crianças jogaram com antigos atletas gregos e com convidados como Oliver Bierhoff e Aljoša Asanović. Dimitra Panteliadou, ex-jogadora da seleção grega e sua maior artilheira, também participou.

A Federação Helênica apresentou a iniciativa como uma forma de aproximar meninos e meninas dos valores sociais e esportivos do jogo. A combinação é editorialmente reveladora: enquanto a cerimônia noturna reconheceu fundadores e campeões, a atividade pública colocou crianças em campo. Assim, o centenário procurou ligar legado institucional, memória popular e participação futura.

Como ler este centenário

A melhor chave não é escolher qual cidade representa o futebol grego. É perceber as funções complementares: Atenas como centro administrativo e palco de marcos nacionais; Pireu como núcleo fundador e território de uma potência esportiva; Tessalônica como voz do norte e sede simbólica das comemorações de 2026.

Informações institucionais e eventuais novas ações comemorativas podem mudar; antes de planejar qualquer atividade relacionada, consulte os links oficiais da federação. Para continuar a conversa entre esporte, cidade e cultura em São Paulo, o Becoartes fica na Rua Gonçalo Afonso, 99, Vila Madalena.

Esporte também é memória urbana

No Becoartes, a conversa cultural continua na Rua Gonçalo Afonso, 99, Vila Madalena.

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