Cinema mundial

Dois Leões, duas trajetórias: seis filmes de Ellen Burstyn e George Clooney

Um percurso comparativo pela atuação de Burstyn e pelo trabalho de Clooney como ator, roteirista e diretor, a partir das homenagens anunciadas em Veneza.

Por onde começar a entender duas carreiras tão diferentes? A resposta curta é assistir a três filmes de Ellen Burstyn e três de George Clooney, procurando qualidades distintas: a transformação emocional dela e a passagem dele entre atuação, roteiro e direção.

A 83ª Mostra Internacional de Cinema de Veneza, realizada de 2 a 12 de setembro de 2026, anunciou ambos como destinatários do Leão de Ouro pelo conjunto da obra. A página oficial sobre Clooney informa que a homenagem foi concedida na abertura, em 2 de setembro. Já o comunicado sobre Burstyn, embora datado de 7 de setembro, ainda descreve a entrega no futuro. Sem uma fonte posterior, é mais preciso dizer que a cerimônia dela estava programada para aquela data, não que sua realização esteja confirmada.

Ellen Burstyn se inclina sobre uma cama enquanto segura uma menina em uma cena em preto e branco.
Ellen Burstyn e uma menina durante uma cena dramática em um quarto.

O contraste que orienta o percurso

Veneza apresenta Burstyn sobretudo pelo rigor da interpretação: intensidade, disciplina e verdade emocional aplicadas a personagens complexas. O panorama oficial passa por *The Last Picture Show*, *The Exorcist*, *Alice Doesn’t Live Here Anymore*, *Requiem for a Dream* e *Interstellar*.

Clooney é descrito como ator, diretor e produtor, com uma carreira que atravessa gêneros e responsabilidades. Assim, este não é um ranking dos “melhores” trabalhos. É um roteiro de observação: em Burstyn, acompanhe como corpo, voz e silêncio expressam mudança; em Clooney, identifique o que pertence à performance e o que nasce da escrita ou da encenação.

George Clooney sorri em primeiro plano, usando terno escuro e camisa branca.
George Clooney sorri diante da câmera em um retrato aproximado.

1. *The Last Picture Show*: a presença de Burstyn

A Biennale identifica o filme de Peter Bogdanovich como a obra que revelou Burstyn e registra indicações ao Oscar e ao Globo de Ouro. É uma boa primeira sessão porque evidencia uma atriz capaz de alterar o peso emocional de uma cena sem precisar ocupar permanentemente seu centro.

Observe as pausas, as mudanças de atenção e o modo como uma reação pode dizer mais que uma fala. Esse olhar prepara o espectador para personagens posteriores, nas quais a vulnerabilidade deixa de ser apenas sugerida e passa a conduzir a narrativa.

George Clooney, de terno claro e óculos escuros, está em uma lancha de madeira cercada por fotógrafos e outras embarcações.
George Clooney em uma lancha de madeira entre fotógrafos e barcos em um canal.

2. *Alice Doesn’t Live Here Anymore*: protagonista em transformação

O filme dirigido por Martin Scorsese oferece o marco institucional mais claro deste guia. O registro da Academia de 1975, referente às produções lançadas em 1974, confirma Ellen Burstyn como vencedora do Oscar de melhor atriz. A obra também recebeu indicações para Diane Ladd, como coadjuvante, e para o roteiro original de Robert Getchell.

Mais útil que assistir procurando uma “cena de prêmio” é acompanhar como Burstyn sustenta uma personagem em movimento. A interpretação muda junto com as circunstâncias, evitando reduzir a protagonista a um único estado emocional. Por isso, o filme funciona como centro da trajetória proposta.

3. *Requiem for a Dream*: atuação por deterioração

A biografia da Biennale registra que o filme de Darren Aronofsky rendeu a Burstyn outra indicação ao Oscar de melhor atriz. Depois da contenção de *The Last Picture Show* e da transformação de *Alice*, aqui o exercício é perceber uma atuação construída pela deterioração.

Compare voz, postura e ritmo entre o início e as etapas seguintes da personagem. A sequência dos três filmes revela amplitude sem depender de uma enumeração de prêmios: cada obra exige uma relação diferente entre fragilidade e controle.

4. *Syriana*: Clooney dentro do conjunto

O percurso de Clooney começa apenas pela atuação. No registro do Oscar de 2006, dedicado aos filmes de 2005, ele aparece como vencedor de melhor ator coadjuvante por *Syriana*.

A escolha ajuda a suspender momentaneamente a imagem do astro e a observar seu trabalho dentro de um elenco. A pergunta útil é: como ele contribui para o conjunto quando não ocupa sozinho o centro dramático? Veneza cita o filme ao tratar de sua versatilidade e de sua passagem por diferentes gêneros.

5. *Good Night, and Good Luck.*: direção e escrita

Este é o ponto em que as funções se ampliam. A Academia registra indicações de Clooney à direção e ao roteiro original, este último compartilhado com Grant Heslov. O filme obteve seis indicações, incluindo melhor filme, ator para David Strathairn, fotografia e direção de arte.

Assista primeiro à organização das cenas e depois à interpretação dos atores. O resultado permite entender autoria como coordenação de escolhas, não como domínio solitário: o roteiro pertence oficialmente a Clooney e Heslov, e o desempenho central é de Strathairn.

6. *The Ides of March*: três funções no mesmo filme

Segundo a Biennale, Clooney atuou, coescreveu e dirigiu *The Ides of March*. A fonte também registra uma indicação ao Oscar de roteiro adaptado e indicações ao Globo de Ouro para direção, roteiro e filme dramático.

Para distinguir as tarefas, observe em três passagens: primeiro a atuação; depois o posicionamento e o ritmo das cenas; por fim, a construção do roteiro. O método evita transformar funções diferentes na ideia imprecisa de um “autor total”.

Como montar a maratona

Para acompanhar cada evolução separadamente, assista aos três filmes de Burstyn antes dos três de Clooney. Para uma comparação direta, forme pares: *The Last Picture Show* e *Syriana* para atuações dentro de elencos; *Alice Doesn’t Live Here Anymore* e *Good Night, and Good Luck.* para protagonismo e reconhecimento institucional; *Requiem for a Dream* e *The Ides of March* para contrastar transformação interpretativa e múltiplas funções.

Os registros da Academia confirmam categorias e resultados; os textos da Biennale apresentam o argumento curatorial das homenagens. Prêmios não substituem a experiência dos filmes. Como datas e condições podem mudar, consulte os links oficiais para o registro atualizado.

Se as sessões renderem conversa, o Becoartes fica na Rua Gonçalo Afonso, 99, Vila Madalena, endereço informado em seu site oficial.

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