Futebol, cidade e arquitetura

Um estádio entre o lago e a Champions: como ler o Sinigaglia

A estreia europeia do Como ajuda a revelar um estádio moldado pela história urbana, pela arquitetura moderna e por adaptações recentes.

Em 10 de setembro de 2026, o Como venceu o Leipzig por 4 a 1 no Stadio Giuseppe Sinigaglia. Mais que um resultado expressivo, a partida marcou a estreia do clube em competições europeias — e colocou sob os refletores um estádio cuja singularidade depende tanto do lugar onde foi construído quanto do futebol disputado ali.

Para compreender o Sinigaglia, vale olhar além do gramado. O estádio integra uma paisagem formada pelo Lago de Como, por edifícios associados ao racionalismo italiano e por monumentos erguidos na mesma fase de transformação urbana. Também é importante distinguir as adaptações já concluídas para a Champions League de um projeto mais amplo de reurbanização, ainda apresentado como processo futuro.

Campo iluminado e arquibancada com assentos azuis no Stadio Giuseppe Sinigaglia à noite
O setor Distinti e o campo do Sinigaglia vistos durante uma noite de futebol em 2025.

Uma estreia que mudou a escala do estádio

A UEFA descreveu o confronto com o Leipzig como o primeiro jogo europeu da história do Como. O clube tornou-se o 12º representante italiano na Champions League e chegou à competição depois de terminar a Serie A de 2025/26 em quarto lugar, sua melhor colocação histórica. A dimensão da mudança fica mais clara diante de outro dado: em 2018/19, o time ainda disputava a Serie D, quarta divisão italiana.

No jogo inaugural, Martin Baturina marcou aos 15 minutos o primeiro gol do Como na Champions. Douvikas e Diao ampliaram, Maksimovic descontou para os visitantes e Perrone fechou o placar aos 90 minutos, segundo o relatório oficial da vitória por 4 a 1. O episódio esportivo funciona como porta de entrada para uma história urbana bem mais longa.

Jogadores de azul e de amarelo e vermelho distribuídos pelo campo do Sinigaglia
Vista interna do Sinigaglia durante Como–Lecce pela Serie A de 2024/25.

Um complexo construído junto à cidade moderna

O estádio foi realizado entre 1925 e 1927 e depois modificado e ampliado. Sua leitura, portanto, não deve procurar uma construção preservada como objeto imóvel, mas um complexo que atravessou diferentes necessidades esportivas e urbanas.

A localização é decisiva. O roteiro arquitetônico publicado pelo Como 1907 situa o Sinigaglia no centro de um conjunto ligado ao racionalismo: linhas limpas, formas essenciais e ausência de ornamentos caracterizam vários edifícios próximos. O complexo também inclui uma piscina, na qual permanecem blocos originais de vidro que filtram a luz solar.

O lago não é apenas cenário fotográfico. Ele organiza a percepção do conjunto: água, montanhas, equipamentos esportivos, residências e monumentos aparecem em sucessão, fazendo do estádio uma peça da cidade, não um recinto isolado.

Torcedores do Como com bandeiras azuis em arquibancada aberta diante de uma encosta urbana
A Curva Azzurra do Sinigaglia durante Como–Catanzaro, pela Serie B, em outubro de 2023.

O que mudou para receber a Champions

O Sinigaglia foi oficialmente aprovado para sediar os jogos do Como na Champions League de 2026/27. Para atender às exigências da UEFA, foi concluído um programa de intervenções que incluiu a construção de uma nova arquibancada e melhorias de infraestrutura, segurança e operação, conforme o comunicado do clube sobre a aprovação.

Essas são as obras que já podem ser tratadas como concluídas. A fonte não detalha, porém, cada equipamento instalado nem autoriza inferir características específicas de acesso, capacidade ou serviços. Quem pretende assistir a uma partida deve conferir informações atualizadas de ingressos e operação nos canais oficiais do clube e da competição.

Adequação imediata não é reurbanização completa

Há outro projeto em discussão, de escala maior. Em fevereiro de 2025, clube, Município de Como e escritório Populous anunciaram a etapa inicial de um processo de reurbanização. O cronograma então divulgado indicava aprovação do estudo de viabilidade em maio de 2026, primeira fase construtiva em outubro de 2027 e segunda em agosto de 2028.

Isso não significa que o novo estádio mostrado em imagens conceituais esteja pronto. O próprio anúncio da primeira fase da reurbanização advertia que as visualizações não representavam necessariamente o desenho final. A distinção é essencial: uma coisa é o pacote concluído para permitir os jogos europeus de 2026/27; outra é a transformação urbana mais ampla, sujeita a projeto, aprovação e execução. Prazos e condições podem mudar e devem ser conferidos no link oficial.

Como ler o entorno com atenção

Um bom ponto de comparação visual é o Novocomum, edifício residencial de Giuseppe Terragni em viale Sinigaglia 1. Conhecido localmente como “Transatlântico” pela aparência de navio, ele permite perceber volumes geométricos e a relação entre arquitetura, lago e montanha.

Ao lado do estádio fica o Monumento ai Caduti, torre comemorativa baseada em desenho de Antonio Sant’Elia. Ao voltar o olhar para Brunate, entra no campo visual o Tempio Voltiano, construído no fim da década de 1920 em linguagem neoclássica. O contraste ajuda: ele não pertence ao racionalismo, mas participa do diálogo espacial com os monumentos vizinhos e os jardins à beira do lago.

O roteiro do clube ainda identifica nas proximidades a Canottieri Lario, em viale Puecher 6, e o Aeroclub Como, em viale Masia 44. Juntos, esses elementos mostram uma margem organizada por esporte, circulação, memória pública e experimentação arquitetônica.

Uma cronologia para separar as camadas

Entre 1925 e 1927, foi construído o estádio original. Nas décadas seguintes vieram modificações e ampliações. Em fevereiro de 2025, foi anunciada a fase preliminar de uma reurbanização mais abrangente. Antes da temporada 2026/27, terminaram as intervenções necessárias à aprovação para a Champions. Em 10 de setembro de 2026, o Como disputou ali sua primeira partida europeia e venceu o Leipzig.

Essa sequência impede dois enganos: imaginar que o edifício atual permaneceu inalterado desde os anos 1920 ou confundir adequações operacionais recentes com a execução integral do plano futuro. O valor do Sinigaglia está justamente na sobreposição dessas épocas — um estádio histórico que continua mudando, enquadrado pelo lago e por uma das paisagens arquitetônicas mais reconhecíveis de Como.

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