Cinema africano

La Maison du Vent: do corte inacabado aos dois prêmios em Veneza

O longa de Auguste Bernard Kouemo Yanghu passou pelo Final Cut in Venice, reuniu parceiros de seis países e foi premiado em duas categorias.

*La Maison du Vent* (*House of the Wind*) é um drama de 102 minutos, falado em francês e bafang, sobre uma mãe de 80 anos que vive sozinha em Yaoundé enquanto os filhos estão no Ocidente. Em 12 de setembro de 2026, o primeiro longa de Auguste Bernard Kouemo Yanghu recebeu o Leão do Futuro e o Prêmio Especial do Júri Orizzonti no 83º Festival de Veneza. Para entender sua projeção, vale acompanhar a combinação entre uma história familiar, uma coprodução de seis países e os apoios obtidos quando o filme ainda estava inacabado.

Blick Bassy canta e toca guitarra entre dois músicos em um palco iluminado
Blick Bassy, um dos compositores creditados em La Maison du Vent, durante apresentação musical em 2023.

Uma casa pensada para trazer os filhos de volta

Segundo a ficha oficial da Biennale, Josette mora sozinha em Yaoundé, nos Camarões, depois que todos os filhos partiram para o Ocidente. Ela os incentiva a construir casas no país natal como estratégia para fazê-los voltar. A ligação inesperada com Sarah, uma jovem da vizinhança, desestabiliza suas ideias sobre família, responsabilidade e futuro.

Diretor e roteirista, Kouemo Yanghu relaciona a premissa à própria história. Camaronês de origem e residente na França há 20 anos, ele afirma que Josette foi inspirada em sua mãe. Assim como a personagem, ela permaneceu na grande casa familiar de Yaoundé após os seis filhos passarem a viver fora, principalmente na Europa. A residência concentra, portanto, memória, solidão e expectativa de retorno.

O elenco principal reúne Josette Kwanya, Moudjeu Pouadeu e Adrien Jolivet. Eva Sehet assina a fotografia; Ewin Ryckaert e Geoffroy Cernaix, a montagem; Rosine Nkem, o desenho de produção; Valérie Elemva, os figurinos; e Michel Duprez e Blick Bassy, a música.

Blick Bassy toca guitarra e canta no centro de um palco com músicos e painéis coloridos
Apresentação de Blick Bassy em 2023; o músico divide com Michel Duprez o crédito musical do longa.

Francês e bafang no mesmo filme

A Biennale identifica francês e bafang como os idiomas do longa. O dado situa culturalmente a obra sem transformar a língua em curiosidade: a história ambientada em Yaoundé chegou a uma vitrine internacional preservando o bafang entre seus idiomas oficiais.

As fontes não informam quanto do diálogo corresponde a cada língua nem explicam as escolhas linguísticas de cenas específicas. Não é possível, portanto, atribuir a essa combinação efeitos narrativos não documentados. O que se pode afirmar é que o bilinguismo integra oficialmente um filme sobre uma família separada pela migração.

Uma coprodução entre seis países

A apresentação de 2026 associa o filme a Camarões, França, Bélgica, Benim, Arábia Saudita e Catar. A produção reúne Horizons d’Afrique, de Linda Natacha Kwanya e Kouemo Yanghu; La Mansarde Cinéma, de Arthur Grec; Steel Fish Pictures, de John Engel; Merveilles Production, de Faissol Gnonlonfin; Red Sea Fund; e Doha Film Institute.

As produtoras têm endereços informados em Yaoundé, Paris, Bruxelas e Cotonou, enquanto os fundos ligam a estrutura à Arábia Saudita e ao Catar. A ficha também aponta a Celluloid Dreams como agente de vendas mundiais. Isso revela uma rede concreta entre África, Europa e Oriente Médio, mas não significa que todos os parceiros tenham desempenhado funções iguais. Contratos, orçamento e divisão de direitos não aparecem nas fontes consultadas.

O laboratório do corte inacabado

Em julho de 2025, *House of the Wind* estava entre os oito projetos selecionados pelo Final Cut in Venice, então creditado a Camarões, Benim, França e Bélgica. O programa da Venice Production Bridge apresenta cópias de trabalho a produtores, compradores, distribuidores, empresas de pós-produção e programadores de festivais, buscando facilitar a conclusão e o acesso ao mercado de filmes africanos e de países determinados do Oriente Médio.

A edição ocorreu entre 31 de agosto e 2 de setembro de 2025. O projeto não recebeu o prêmio principal da Biennale, concedido a *The Station*, mas conquistou dois apoios de parceiros. Conforme a relação oficial do Final Cut, a M74, de Roma, ofereceu até € 10 mil em efeitos visuais digitais 2D. A Mnemonica disponibilizou sua plataforma em nuvem para armazenar, compartilhar e distribuir o filme, serviço avaliado em € 10 mil.

Esses apoios não revelam quais planos foram modificados nem permitem comparar os cortes. Eles documentam recursos técnicos obtidos durante o acabamento: efeitos visuais e gestão segura dos arquivos necessários à circulação profissional.

Por que os dois prêmios são diferentes

Um ano depois, o longa competiu na Orizzonti, seção com júri próprio. A lista oficial dos vencedores atribui a *La Maison du Vent* o Prêmio Especial do Júri Orizzonti. O prêmio de melhor filme da seção foi para *Un détour par Diane*; as duas distinções não devem ser confundidas.

O outro reconhecimento veio de um júri separado: o Leão do Futuro — Prêmio de Veneza “Luigi De Laurentiis” para um filme de estreia. A combinação distingue a obra tanto dentro da competição Orizzonti quanto entre os primeiros filmes elegíveis no festival. É esse resultado simultâneo, mais do que uma ideia vaga de “filme vencedor”, que explica sua posição particular no palmarès de 2026.

Como acompanhar a circulação

Os prêmios confirmam a recepção institucional em Veneza, mas as fontes não anunciam estreia comercial nem disponibilidade em streaming. Para acompanhar mudanças, convém procurar pelos títulos *La Maison du Vent* e *House of the Wind* e pelo nome completo de Auguste Bernard Kouemo Yanghu em catálogos e canais oficiais.

A trajetória verificável já é expressiva: uma narrativa pessoal situada em Yaoundé, falada também em bafang, passou de uma cópia de trabalho apoiada em 2025 a dois reconhecimentos de júris diferentes em 2026.

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