Jornalismo esportivo

Marcos Penido e a era em que o futebol cabia na reportagem

A morte do jornalista esportivo recoloca em cena um modo de cobrir o jogo em que apuração, redação e arquibancada formavam uma mesma linguagem cultural.

Marcos Penido morreu no sábado, 29 de agosto de 2026, aos 74 anos, no Rio de Janeiro, após um quadro de insuficiência cardíaca. A informação foi registrada por entidades da imprensa esportiva e por veículos que acompanharam sua trajetória. O dado imediato é simples e duro: um repórter de futebol, formado na rotina de redação, campo, concentração, aeroporto e arquivo, saiu de cena. O que fica é mais amplo do que uma nota de pesar.

Penido trabalhou por 32 anos em O Globo, passou antes pelo Jornal do Brasil, cobriu nove Copas do Mundo consecutivas, de 1982 a 2014, e recebeu dois Prêmios Esso. Também presidiu a Associação de Cronistas Esportivos do Rio de Janeiro entre 2014 e 2017, depois de ter participado de sua reconstrução institucional. Esses fatos confirmados já bastariam para situar sua importância profissional. Mas a relevância cultural aparece quando se observa o tipo de jornalismo que ele representava: a reportagem esportiva como método de leitura do Brasil.

Imagem de arquivo de Marcos Penido publicada pela ACERJ em nota de pesar.
A ACERJ destacou a atuação de Marcos Penido na entidade e na imprensa esportiva.

O fato confirmado

As fontes públicas convergem nos pontos principais. Marcos Penido morreu aos 74 anos. A Federação de Futebol do Estado do Rio de Janeiro informou que ele era conhecido como Penidão, trabalhou 32 anos no jornal O Globo, passou pelo Jornal do Brasil, venceu dois Prêmios Esso e cobriu nove Copas. A ACERJ registrou sua atuação na entidade, incluindo a vice-presidência entre 2008 e 2014 e a presidência entre 2014 e 2017. O Jornal do Brasil e o Lance também destacaram a sequência de Copas e a investigação premiada sobre manipulação de resultados no futebol carioca em 1994.

Há, portanto, uma base factual nítida: Penido não foi apenas um nome de bastidor. Ele atravessou uma longa fase em que o futebol brasileiro era contado por profissionais que dependiam de presença física, fonte cultivada ao longo de anos, checagem paciente e capacidade de transformar jogo em narrativa sem abandonar a notícia.

Registro de Marcos Penido em arquivo da ACERJ ligado à sua trajetória no jornalismo esportivo.
Marcos Penido também presidiu a ACERJ entre 2014 e 2017.

A reportagem antes da velocidade permanente

A interpretação começa aqui: Penido pertenceu a uma escola em que o repórter esportivo precisava disputar espaço com a paixão do torcedor sem virar refém dela. O futebol sempre produziu exagero, rivalidade e mito. A diferença é que a cobertura impressa exigia uma forma específica de responsabilidade. A frase precisava resistir ao dia seguinte. A apuração precisava sobreviver ao vestiário fechado, ao dirigente interessado, ao árbitro pressionado, ao craque protegido e ao clube que tentava controlar a versão.

Hoje, parte do debate esportivo nasce e morre em minutos. O comentário instantâneo ocupa o espaço que antes era do contexto. Penido veio de outro tempo técnico e cultural: o tempo da matéria fechada à noite, da pauta construída por telefone, da viagem internacional sem a estrutura digital que hoje parece natural, do repórter que precisava saber onde estava a notícia antes que ela virasse pronunciamento oficial.

Isso não significa idealizar o passado. Redações antigas também tinham vícios, hierarquias fechadas e pontos cegos. Mas a trajetória de Penido ajuda a lembrar que o jornalismo esportivo, quando levado a sério, nunca foi só entretenimento. Ele lida com dinheiro, poder, trabalho, identidade territorial, indústria cultural, violência simbólica, memória coletiva e linguagem popular.

Nove Copas como arquivo de um país

Cobrir nove Copas do Mundo consecutivas não é apenas uma marca numérica. Entre 1982 e 2014, o futebol mudou, a televisão mudou, a relação do torcedor com a seleção mudou e o Brasil mudou junto. A Copa da Espanha, em 1982, ainda vive no imaginário brasileiro como símbolo de beleza e frustração. A de 1994 recolocou o país no topo esportivo em um momento de reorganização econômica e midiática. A de 2002 consolidou Ronaldo, Rivaldo e Ronaldinho como imagens globais. A de 2014, no Brasil, abriu uma ferida pública que misturou festa, megaevento, custo urbano, expectativa e trauma esportivo.

Penido acompanhou esse arco como repórter. O dado interessa porque a Copa, para o Brasil, nunca foi apenas campeonato. Foi televisão ligada em sala de aula, comércio fechando mais cedo, camisa na rua, conversa de bar, álbum de figurinhas, crítica ao técnico, sonho de ascensão e disputa sobre o que o país imagina ser.

A reportagem esportiva, nesse contexto, funciona como arquivo popular. Nem sempre ela recebe esse nome. Mas é ela que registra escalações, bastidores, lesões, crises, aeroportos, treinos, frases atravessadas, títulos e derrotas. Sem esse trabalho, a memória do futebol fica entregue apenas ao clipe, ao slogan e ao corte emocional.

O prêmio e a investigação

Um ponto central da carreira de Penido é a investigação premiada de 1994, quando uma reportagem de O Globo revelou um esquema de manipulação de resultados no futebol carioca. Segundo registros do Jornal do Brasil, da ACERJ e do Lance, esse trabalho rendeu a ele e à equipe um Prêmio Esso de Informação Esportiva.

Esse dado separa a cobertura esportiva da ideia limitada de bastidor leve. Investigar manipulação de resultados significa tratar o futebol como instituição atravessada por interesses, não como espetáculo inocente. Significa reconhecer que o jogo mexe com reputações, receitas, apostas emocionais, carreiras e poder local. Também significa aceitar que o repórter pode contrariar clubes, federações, árbitros e torcedores quando a notícia exige.

É nesse ponto que a relevância cultural da pauta fica mais clara. A cultura do futebol brasileiro não é feita apenas de gols bonitos. Ela também é feita das disputas por verdade em torno do jogo. O repórter esportivo, quando investiga, obriga o espetáculo a prestar contas.

O futebol carioca e a imprensa como cena pública

Penido era torcedor do Botafogo, fato mencionado em diferentes registros, mas sua biografia profissional foi associada à exigência de separar preferência pessoal e apuração. Essa tensão é uma das marcas do jornalismo esportivo no Brasil. O repórter cobre um universo em que todo mundo quer saber seu time, mas seu trabalho depende de não reduzir a notícia a esse pertencimento.

No Rio de Janeiro, essa tensão ganha força especial. Flamengo, Vasco, Fluminense e Botafogo não são apenas clubes; são redes de memória familiar, bairros imaginados, rádios ligados, rivalidades herdadas e modos de ocupar a cidade. A crônica esportiva carioca ajudou a transformar partidas em conversa pública. O jornalismo de Penido nasceu nesse ambiente, mas não se limitou a ele.

Quando uma entidade como a ACERJ registra sua participação na reconstrução institucional da associação, o retrato se amplia. Não se trata só do profissional que assinou matéria. Trata-se de alguém que também atuou na preservação de uma categoria, num momento em que a imprensa esportiva enfrentava mudanças econômicas, tecnológicas e trabalhistas.

O que sua trajetória diz ao presente

O presente do jornalismo esportivo é fragmentado. Há criadores independentes, transmissões alternativas, clubes virando mídia própria, podcasts, cortes de vídeo, casas de aposta, influenciadores e torcedores que produzem análise em tempo real. Esse ecossistema tem ganhos reais: mais vozes, mais formatos, mais acesso. Mas também aumenta o risco de transformar tudo em reação.

A história de Marcos Penido lembra que a reportagem continua sendo uma tecnologia cultural insubstituível. Ela não depende apenas de plataforma. Depende de método. Perguntar, confirmar, voltar ao assunto, escutar quem não está no centro da cena, desconfiar do release, preservar contexto e assumir responsabilidade pelo que se publica continuam sendo gestos modernos.

O futebol brasileiro precisa dessa prática porque segue sendo uma das maiores máquinas narrativas do país. Cada jogo produz pertencimento. Cada crise produz versões interessadas. Cada título vira patrimônio afetivo. Cada escândalo testa a disposição da imprensa de ir além do placar.

Entre o jogo e a cidade

Falar de Marcos Penido a partir de São Paulo pode parecer, à primeira vista, deslocado: sua história profissional está profundamente ligada ao Rio e ao futebol carioca. Mas São Paulo também sabe que futebol e cultura urbana caminham juntos. A cidade abriga bares onde jogos mudam o som da rua, redações que formaram gerações de repórteres, torcidas que atravessam bairros e uma vida cultural que entende o esporte como linguagem social.

Na Vila Madalena, onde a arte de rua convive com mesa de bar, música, turismo e conversa pública, o futebol também aparece como memória compartilhada. A morte de Penido não pede nostalgia vazia. Pede atenção ao valor de quem transformou o jogo em apuração e ajudou a registrar, com método, uma parte importante da cultura brasileira. Para o Becoartes, esse é o ponto: toda cidade precisa de quem saiba contar suas paixões sem abrir mão da verdade.

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