Televisão brasileira

SBT aos 45 anos: a TV popular entre memória, crise e reinvenção

A emissora criada por Silvio Santos chega a uma fase decisiva: preservar seu repertório afetivo sem tratar nostalgia como projeto cultural suficiente.

O SBT chegou aos 45 anos como uma das marcas mais reconhecíveis da televisão brasileira, mas também como um caso raro de emissora cuja força cultural não cabe apenas nos números de audiência. A rede fundada por Silvio Santos em 19 de agosto de 1981 atravessou gerações combinando auditório, dramaturgia infantil, jornalismo popular, humor, formatos importados, novelas mexicanas, reprises afetivas e uma ideia muito própria de proximidade com o público. Em 2026, essa herança ainda pesa. A pergunta é o que fazer com ela.

A semana de aniversário recolocou a emissora no centro de uma conversa maior sobre TV aberta, memória popular e renovação. O SBT revisitou seu acervo em especial comemorativo, viu Patrícia Abravanel alcançar forte desempenho no domingo e continua tentando reorganizar uma grade que alterna tradição, apostas recentes e lacunas evidentes. O ponto cultural está justamente aí: a emissora não disputa apenas posição no ranking do controle remoto. Ela disputa a capacidade de transformar lembrança em linguagem viva.

Fachada da sede do SBT em Osasco, referência visual para a história da emissora
A sede do SBT em Osasco ajuda a localizar materialmente uma marca central da televisão brasileira.

O SBT como memória coletiva da TV aberta

Falar do SBT é falar de uma televisão que entrou na casa brasileira pelo riso, pelo jogo, pelo improviso e pelo reconhecimento imediato. Durante décadas, a emissora cultivou uma relação menos solene com o público do que suas principais concorrentes. Sua identidade foi construída em torno de apresentadores de forte presença, programas de auditório, atrações familiares e uma dramaturgia que muitas vezes vinha de fora, mas era recebida como parte do cotidiano local.

Essa memória não é pequena. Para muita gente, SBT significa tardes com Chaves, domingos com Silvio Santos, novelas mexicanas, programas infantis, quadros de competição, bordões repetidos em família e uma televisão assumidamente popular. Essa palavra, popular, precisa ser lida sem condescendência. O canal ocupou um lugar de mediação cultural: traduziu formatos estrangeiros, absorveu humor de auditório, misturou melodrama e entretenimento e produziu uma linguagem reconhecida em diferentes classes e regiões.

O especial do SBT Repórter dedicado aos 45 anos reforçou esse movimento de olhar para trás. Segundo divulgação da própria emissora, o programa reuniu entrevistas e recuperou momentos marcantes da trajetória do canal. O gesto é compreensível: o acervo é um patrimônio simbólico. Mas memória televisiva só ganha força quando ajuda a iluminar o presente. Se vira apenas vitrine comemorativa, corre o risco de parecer museu de si mesma.

Silvio Santos em contexto televisivo, símbolo da formação cultural do SBT
Silvio Santos foi a figura central na construção da linguagem pública do SBT.

O peso de Silvio Santos depois de Silvio Santos

Nenhuma leitura do SBT escapa de Silvio Santos. O fundador foi mais do que empresário ou apresentador; foi a gramática pública da emissora. Seu modo de conduzir o auditório, negociar com o acaso, conversar com participantes e transformar erros em cena criou uma escola de televisão. O SBT cresceu como extensão de uma presença, e isso explica tanto sua singularidade quanto seu desafio atual.

Depois de Silvio, a emissora precisa provar que a marca pode existir como sistema cultural, não apenas como lembrança de uma figura central. Patrícia Abravanel ocupa hoje um papel importante nesse processo. De acordo com o F5, o Programa Silvio Santos comandado por ela alcançou liderança por nove minutos não consecutivos no domingo, 23 de agosto, e registrou seu melhor desempenho do semestre. O dado importa menos como troféu isolado e mais como sinal de que o auditório clássico ainda tem energia quando encontra ritmo, elenco e senso de ocasião.

Mas a sucessão simbólica não se resolve com imitação. O que fazia Silvio funcionar não era apenas o formato; era a capacidade de converter a imprevisibilidade em pacto com a plateia. Uma televisão popular contemporânea precisa encontrar outra forma de presença, adequada a um público que assiste em telas múltiplas, comenta em tempo real e compara a TV aberta com streaming, redes sociais e cortes de vídeo.

Palco de programa de auditório ligado à tradição popular do SBT
O auditório continua sendo uma das formas mais reconhecíveis da TV popular brasileira.

Renovar sem apagar a identidade

Reportagem de UOL Splash sobre os 45 anos apontou que a emissora vive um momento de renovação enquanto tenta preservar sua identidade. Esse é o núcleo do impasse. O SBT tem uma marca forte demais para virar outra coisa de uma hora para outra, mas também não pode tratar sua história como garantia automática de futuro.

A grade recente mostra uma emissora tentando equilibrar peças conhecidas e apostas de reorganização. Há jornalismo nas manhãs, novelas estrangeiras, programas de fofoca, atrações de auditório, sessões de entretenimento e presença esportiva pontual. Essa combinação mantém certa familiaridade, mas evidencia uma questão: qual é o centro criativo do SBT hoje?

No passado, mesmo quando a emissora parecia irregular, havia uma percepção clara de personalidade. O SBT podia ser menos sofisticado em acabamento, mas era reconhecível em tom. Em 2026, o risco é a grade parecer uma soma de soluções práticas sem um projeto cultural tão nítido. A renovação necessária não significa abandonar Chaves, auditório ou melodrama. Significa reorganizar esses elementos dentro de uma visão que fale com o Brasil atual, sem depender apenas da lembrança do Brasil televisivo dos anos 1980, 1990 e 2000.

Plateia em estúdio de televisão, representando a relação entre TV aberta e público
A força da TV aberta passa pelo encontro entre palco, rotina doméstica e público ao vivo.

A disputa cultural da TV aberta

A TV aberta mudou de função, mas não desapareceu. Ela já não monopoliza a atenção familiar como antes, porém ainda opera como uma praça pública de grande alcance. Em eventos esportivos, programas dominicais, jornalismo ao vivo e formatos de participação popular, continua capaz de reunir públicos que dificilmente se encontrariam numa mesma bolha digital.

Nesse cenário, o SBT tem uma vantagem simbólica: sua história é profundamente associada à ideia de televisão acessível. A emissora sempre soube falar com quem queria companhia, riso, prêmio, novela, música e comentário leve sobre celebridades. Essa vocação pode parecer simples, mas é culturalmente relevante. Ela diz respeito à forma como o Brasil organiza lazer, família, domingo, infância e intimidade doméstica.

Ao mesmo tempo, a concorrência ficou mais complexa. O streaming capturou parte da ficção seriada. As redes sociais capturaram o improviso, o bastidor e a reação imediata. O YouTube capturou a programação sob demanda. A TV aberta precisa justificar sua presença com aquilo que faz melhor: evento, simultaneidade, rosto, rotina e familiaridade. Para o SBT, a pergunta não é apenas como atrair audiência, mas como fazer sua linguagem popular parecer necessária de novo.

Dramaturgia, auditório e o vazio de projeto

Um dos pontos mais sensíveis é a dramaturgia. O SBT construiu parte de sua memória recente com novelas infantis e juvenis, além de exibir tramas estrangeiras que formaram público fiel. No entanto, uma emissora que deseja relevância cultural precisa mais do que reprises afetivas ou compras bem posicionadas. Precisa de produção capaz de criar personagens, conflitos e imaginários do presente.

A dramaturgia popular brasileira sempre foi uma máquina poderosa de conversa social. Quando funciona, coloca bairro, escola, família, desejo, conflito de classe e sonho de mobilidade dentro da sala. O SBT conhece esse território, mas precisa decidir se quer ocupá-lo com ambição ou apenas administrá-lo como lembrança.

O auditório vive dilema parecido. Programas de palco ainda podem ser fortes porque oferecem presença, acaso e comunidade. Mas o auditório que sobrevive em 2026 precisa entender que seu público também conhece memes, podcasts, realities, transmissões ao vivo e linguagem de criadores digitais. O desafio não é copiar a internet. É lembrar que o melhor auditório sempre foi interativo antes mesmo da palavra virar moda.

O que é fato e o que é leitura editorial

Os fatos confirmados são claros: o SBT completou 45 anos em 19 de agosto de 2026; a emissora exibiu um especial comemorativo do SBT Repórter; análises recentes apontam uma fase de renovação e pressão por identidade; e o Programa Silvio Santos com Patrícia Abravanel teve desempenho destacado no domingo, 23 de agosto, segundo reportagem do F5.

A interpretação editorial começa quando esses elementos são colocados em perspectiva. O aniversário não é só efeméride institucional. Ele expõe uma transição cultural: uma emissora criada em torno de uma personalidade monumental precisa se reorganizar numa paisagem em que a autoridade da TV aberta é menor, mas sua capacidade de criar rituais coletivos ainda existe.

O SBT pode errar se tentar virar apenas uma versão nostálgica de si mesmo. Também pode errar se apagar justamente aquilo que o torna reconhecível. O caminho mais interessante está no meio: usar memória como repertório, não como abrigo. Isso exige programação, direção artística, dramaturgia, humor e auditório que compreendam a cultura popular como matéria viva.

Por que isso importa para a cultura pop brasileira

A televisão aberta foi uma das grandes fábricas de cultura pop do Brasil. Antes de plataformas globais dominarem a conversa, eram os programas de domingo, as novelas, os comerciais, as vinhetas e os apresentadores que criavam referências compartilhadas. O SBT participou intensamente dessa construção. Sua estética, por vezes vista como excessiva ou irregular, ajudou a formar um vocabulário popular que ainda circula nas redes.

Quando uma emissora como o SBT atravessa uma crise de identidade, o assunto não é apenas corporativo. É também uma pergunta sobre o tipo de cultura comum que ainda somos capazes de produzir. A fragmentação digital cria nichos poderosos, mas reduz a experiência de assistir junto. A TV aberta, com todos os seus limites, ainda oferece esse encontro.

Aos 45 anos, o SBT não precisa provar que foi importante. Isso já está dado. Precisa provar que sua importância pode continuar operando no presente. Para isso, memória afetiva deve virar linguagem, e linguagem deve virar programação capaz de conversar com quem cresceu com a emissora e com quem já nasceu sem depender dela.

No fim, a história do SBT interessa porque fala de uma cultura brasileira que sempre misturou palco, improviso, melodrama e afeto doméstico. Em São Paulo, onde a televisão se cruza com publicidade, música, teatro, periferias criativas e noites de debate cultural, essa conversa continua aberta. Para o Becoartes, olhar para essa emissora é também olhar para o país popular que passa pelas telas antes de ganhar as ruas, os bares, os muros e as conversas da cidade.

Leia a TV como cultura

Acompanhe no Becoartes outras leituras sobre música, cinema, arte urbana e os rituais populares que moldam São Paulo.

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